Falar sobre as práticas culturais da viticultura do Dão ainda é, no essencial, descrever os hábitos ancestrais de um povo que encontrou na agricultura o seu modo de afirmação cultural. À parte a introdução dos porta-enxertos e adubos químicos, a substituição da tracção animal pela mecânica e a generalização dos pesticidas pouco mais mudou, nos últimos séculos, no Dão, continuando a transmitir-se de pais para filhos o saber acumulado ao longo de gerações. Nos fins da última década, porém, começou a assistir-se a uma rápida evolução técnica da viticultura, de algum modo estimulada pelas ajudas comunitárias à reconversão do sector e pelos exemplos que as grandes empresas e os produtores engarrafadores têm dado na implantação das suas vinhas.
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A Instalação da Vinha
Na instalação de uma vinha nova, a primeira operação a realizar é a surriba, que na região recebe o nome de saibra ou saibramento. Executa-se, como regra, no Verão ou princípios de Outono, sendo de todas as operações a mais árdua, difícil e onerosa. O seu principal objectivo é a boa mobilização do solo até cerca de um metro e vinte de profundidade, de forma a permitir o bom desenvolvimento das raízes das videiras. No passado, consistia na abertura de valas, dispostas lado a lado, com uma largura da ordem de 1 metro e uma profundidade compreendida, geralmente, entre 0,80 e 1,10 m. A mobilização do solo fazia-se lançando numa vala já aberta a terra proveniente da abertura da seguinte, de tal modo que se assegurava a inversão das diferentes camadas do solo. No fundo da cada vala, deitava-se mato verde ou rama de pinheiro como fertilizante orgânico. A mobilização do solo era feita à enxada, ou enxadão, e força de braço, tornando-se um trabalho lento e extremamente penoso. Em muitas zonas, onde o solo é delgado e os afloramentos rochosos frequentes, havia que destruir a camada de saibro, denominada saibrão, que não cedia à acção da enxada. Só o enxadão, a picareta e o suor dos homens conseguiam vencer a dureza desta camada, justificando o nome de saibra para esta operação. Quando aparecia o granito, era necessário parti-lo e, por vezes, removê-lo do terreno, para permitir o desenvolvimento das raízes e a uniformização da plantação. Se era do tipo "dente de cavalo", a tarefa estava facilitada. Mas, se era de grão fino, o trabalho assumia, então, um carácter de quase penitência, entrando em acção as alavancas, picos, guilhos, pistolos e marretas, acompanhados dos indispensáveis materiais - pólvora, rastilhos e fogo.
Hoje em dia, a saibra está bastante facilitada, graças à utilização de potentes tractores de rasto munidos de uma pá frontal que, num vaivém constante, não só revolvem o solo até à profundidade desejada, como também removem blocos de pedra e nivelam o terreno. Em alguns solos mais favoráveis, onde os afloramentos rochosos não são de temer, começa a generalizar-se, ultimamente, o uso de charruões puxados por tractores de rasto, dado os custos envolvidos serem muito menores.
Feita a surriba, e a espedrega, quando necessário, regularizava-se a superfície do terreno que, nas encostas de maior pendor, obrigava à sua armação em socalcos, chamados geios, mediante a construção de pequenos muros de suporte, em pedra solta, ditos arretos.
Preparado o terreno, procedia-se, por alturas de Fevereiro, à plantação dos bacelos, ou porta-enxertos, mediante a abertura de covachos, geralmente à enxada, de dimensões apropriadas. Abertos os covachos, deitava-se-lhes estrume, que se cobria com uma fina camada de terra, procedendo-se, em seguida, à plantação propriamente dita. Actualmente, a plantação é mais fácil, por ser, essencialmente, mecanizada. A regularização do terreno ainda contempla o uso de socalcos, mas os arretos foram substituídos por taludes feitos em terra. Antes da plantação, faz-se uma estrumação e uma correcção mineral com adubos e calcário moído. Estas incorporações fazem-se recorrendo à abertura de valas ou, mais correctamente, espalhando os materiais à superfície e enterrando-os com uma lavoura. A plantação dos bacelos faz-se, geralmente, em valas abertas ao comprimento das linhas da futura vinha.
A escolha adequada dos porta-enxertos é um cuidado de grande importância, muito embora no Dão seja de pouco peso. O porta-enxerto mais divulgado é, a longa distância dos restantes, o Aramon x Rupestris n.º1, que foi introduzido na região por alturas de 1891, após a crise filoxérica. Têm também alguma expressão os porta-enxertos 420-A e Riparia Gloire. Actualmente, têm vindo a ser utilizados porta-enxertos mais recentes, de que urge destacar o 99-R, o 110-R, o 1103-P e o SO4.
Um ou dois anos após a plantação, consoante o estado de desenvolvimento dos bacelos, procede-se à enxertia. Executa-se, em regra, nos meses de Março e Abril, pela técnica de fenda cheia. O enxertador começa por limpar e degolar a planta com a tesoura, ligeiramente acima do nível do solo; em seguida, escolhe o garfo de acordo com o diâmetro do cavalo e apara-o em forma de cunha com a navalha. Abre, então, a fenda no cavalo, enxerta e ata com ráfia, amontoando, finalmente, com terra. É costume, na região, os enxertadores bafejarem os garfos antes da enxertia, afirmando que o êxito da operação é garantido quando exalam vapores de vinho. Não surpreende, pois, que bebam tão amiudadamente. Outro hábito que ainda perdura entre os enxertadores é o de utilizarem, de quando em quando, garfos que trazem escondidos nos bolsos, em vez dos fornecidos pelo proprietário da vinha. Esta forma peculiar de deixarem a sua chancela na nova vinha faz com que seja frequente encontrar uma videira de uvas tintas numa fila de videiras de uvas brancas, ou vice-versa.
Terminada a enxertia, instalam-se os esteios e o primeiro arame, dando-se por concluída a instalação da vinha.

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Formas de Condução das Videiras
As formas de condução de cepas plantadas junto às linhas de água ou na bordadura dos campos de cultura, quer em cordões altos, quer em latada, originam plantas de grande porte, mais parecendo uveiras que as tradicionais videiras da região. Embora produzindo abundantemente, a qualidade das suas uvas é má, originando vinhos atípicos que nada têm a ver com o verdadeiro vinho do Dão. Por tal motivo, não se justifica a sua descrição, apesar de ser necessário lembrar que continuam a ter um peso importante na região e a testemunhar a memória de um passado em que a quantidade se sobrepunha claramente à qualidade.
As verdadeiras vinhas do Dão, capazes de originar os vinhos que notabilizaram a região, são conduzidas em manchas contínuas não aramadas, as velhas, ou aramadas, as mais recentes. As primeiras representam, ainda hoje, cerca de 35% da área vitícola regional e dispõem-se em compassos estreitos, geralmente do tipo quadrangular, com distâncias compreendidas entre 5 e 7 palmos craveiros (22 cm x 7). As videiras são conduzidas, de um modo geral, em forma de cone invertido, a cerca de 60-70 cm acima do solo. A altura do tronco e o comprimento dos braços é, ainda hoje, muito variável, até dentro da mesma vinha. Este facto reflecte, por um lado, a atitude que o viticultor antigo sempre teve para com as videiras, tratando-as com o carinho e o cuidado que o vigor de cada uma merece; por outro, traduz a falta de mecanização deste tipo de vinhas, onde a heterogeneidade da plantação não é obstáculo ao seu cultivo.
A forma de condução das videiras está muito condicionada aos seus hábitos de frutificação, não sendo fácil afirmar se foram as castas existentes na região que determinaram o tipo de poda que tradicionalmente se pratica ou, pelo contrário, se houve uma selecção de castas no sentido de permitir a generalização de um tipo único de poda. O certo é que a maioria das castas tradicionais da região frutifica melhor no terço médio das varas, implicando uma poda longa, em vara de 6 a 8 olhos, para que a produção de uvas seja satisfatória. Nesta forma de condução, são deixadas varas em número variável, consoante o vigor das cepas e, sempre que necessário, uma espera, a que Rebello da Fonseca, já em 1790, designava "pollegar". Este sistema de condução tem o inconveniente de provocar a elevação continuada das unidades de frutificação, em consequência de uma poda baseada nas varas e na sua empa acima do terceiro olho.
Como já foi referido, uma poda longa implica a operação complementar da empa, com o objectivo de assegurar o equilíbrio vegetativo da cepa. Nas vinhas não aramadas, a empa é feita recorrendo a tutores mortos, geralmente ramos de pinheiro, cuja curvatura natural os torna especialmente adequados à função. São espetados em posição inclinada junto a cada cepa, enrolando-se as varas à sua volta no sentido descendente. Esta forma de empar as videiras, designada empa em tendal, leva a uma gemedura ao longo da vara, que equilibra o vigor dos pâmpanos resultantes dos gomos deixados na poda.
Há algumas décadas atrás, as vinhas começaram a ser aramadas com o intuito de uniformizar as plantações e facilitar, consequentemente, a mecanização das operações culturais. Os compassos de plantação aumentaram, passando a variar entre 1,20 m e 2 m na distância entre linhas e 1 m e 1,20 m e distância entre cepas. Este sistema de condução das videiras passou a condicionar o seu desenvolvimento vegetativo num plano ao longo das filas, isto é, a vegetação começou a ser embardada.
Nestas vinhas, a armação é constituída, essencialmente, por esteios de granito ou ardósia, os chamados peirões, e por duas fiadas de arame colocadas a 0,60-0,70 m e 1,10-1,30 m do solo, que sustentam a vegetação.
As videiras são geralmente podadas à vara, como no caso anterior, e a empa, em vez de se fazer recorrendo a um tutor, faz-se à volta do primeiro ou segundo arames, consoante a altura a que se encontram as varas. Quando a vara é muito comprida, é costume dizer, com muito sentido popular, que a vara vai beber à adega; quando fica com a ponta voltada para o solo, diz-se que vai beber ao chão.
Nas vinhas tradicionais do Dão, quer sejam ou não aramadas, uma imagem que ressalta de imediato à vista de qualquer observador é o carácter retorcido e sinuoso da maioria das cepas, que se acentua com a idade. Tal facto deve-se aos já referidos abaixamentos, resultantes de uma concepção antiquada da poda. Com efeito, a poda de formação das videiras jovens é feita erradamente, pois a abertura das cepas faz-se muito abaixo do primeiro arame, obrigando a que a vara de poda, para ser empada, mantenha um número considerável de olhos na vertical. No ano seguinte, as varas deixadas na planta inserem-se na zona empada sobre o arame, fazendo com que a altura da unidade de frutificação se eleve e obrigando a que tenham de ser empadas, muitas vezes, sobre o segundo arame. Nestas condições, ao podador só resta, a certa altura, provocar o rebaixamento da cepa através de uma espera, que vai buscar a um ramo "ladrão" situado no tronco, abaixo do primeiro arame.
A introdução dos tractores com rodado largo, essencialmente a partir da década de 60, veio obrigar a que o compasso entre linhas fosse mais uma vez aumentado nas vinhas do Dão, passando-se para 2,30, 2,50 e, mesmo, para 3 metros. Este alargamento do compasso, ao possibilitar a explosão do vigor das cepas, reflectindo-se numa maior dificuldade de condução e agravando as condições de maturação das uvas. Com efeito, a altura de armação destas vinhas manteve-se na maioria dos casos, enquanto o número de varas e de olhos por vara teve de ser aumentado para assegurar o equilíbrio da planta. Em consequência disso, começaram-se a empar as varas simultaneamente nos dois arames, com a consequente sobreposição de folhagem e a maior dificuldade de maturação dos cachos.
Embora a descrição das formas de condução das videiras permita compreender, até certo ponto, a paisagem vitícola do Dão e os aspectos essenciais de duas das práticas culturais mais importantes - a poda e a empa, não permite transmitir a riqueza etnográfica que a actividade vitícola assume na região, justificando-se uma referência a alguns aspectos particulares das práticas culturais efectuadas anualmente nas vinhas.

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Poda
A poda na região do Dão sempre se fez, a exemplo do que acontece noutras regiões, após a queda da folha, no período de repouso vegetativo das videiras. A época da sua realização é bastante condicionada pela quantidade de azeitona que há para apanhar, sendo, em regra, tanto mais temporã, quanto maior for a produção de azeitona. Tradicionalmente, é nos meses de Dezembro, Janeiro e, mais raramente, Fevereiro que se vêem os podadores das vinhas. Actualmente, porém, há uma tendência para ser antecipada, em virtude da escassez de mão-de-obra e da existência de vinhas de maior dimensão. Este facto, contra o qual não é fácil encontrar alternativas, tem levado a que já se faça a poda mesmo antes da queda completa das folhas, com os consequentes efeitos nefastos para as videiras.
Apesar dos condicionamentos que o progresso tem vindo a impor à viticultura da região, continua a haver hábitos ancestrais que ainda são, em muitos casos, respeitados, como a escolha da fase da Lua para dar início à poda das vinhas. Vicêncio Alarte justificava, em 1733, as razões de tal tradição do seguinte modo: "O principal ponto para a poda ser como convem he necessario attender à Lua, porque todas as plantas de tal sorte são sublunares, que anda o humor em hu perpetuo giro; na Lua nova sóbe da raiz para o corpo da arvore; na Lua chea está espalhado pelo seu corpo; no decente até o mingoante dece às raizes; aonde a natureza a recolhe no ultimo quarto da Lua; & assim se podão no Plenilunio, he summamente damnoso à arvore, porque lhe dissipa a sustancia, & toda vay na madeira que se lhe corta, & a arvore fica sem sustancia". Embora esta explicação não seja satisfatória à luz dos conhecimentos actuais, o certo é que, no Dão, muitos viticultores continuam a guiar-se pelas fases da Lua, ora podando quando ela cresce, ora podando em quarto minguante, consoante as suas convicções e hábitos locais.
As vides de poda eram, tradicionalmente, recolhidas e atadas em feixes, utilizando-se para acender as lareiras ou fazer as braseiras onde, nas noites frias de Inverno, se assavam as chouriças embrulhadas em folha de couve. Hoje em dia, devido à falta de mão-de-obra, aos encargos que envolve a sua apanha e, também, devido aos aquecedores eléctricos ou a gás, são queimadas na própria vinha, em grandes fogueiras, devolvendo ao solo grande parte dos seus constituintes minerais e lançando para a atmosfera o seu fumo esbranquiçado, que confere à paisagem um aspecto típico e um aroma peculiar.

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Empa
Esta operação é realizada, na generalidade dos casos, após a conclusão da poda e consiste na gemedura das varas acima dos primeiros olhos, com o objectivo de vigorizar os pâmpanos basilares.
O material utilizado para amarrar as varas gemidas ao tutor ou ao arame é a folha de piteira desfiada. Esta planta, elemento típico da paisagem do Dão, quando é mansa permite tirar várias amarras ao comprimento da folha, mas, quando é brava, pica nas mãos e é difícil de desfiar. A ráfia é outro material vegetal utilizado, ainda que mais raramente, na amarração das varas e, ultimamente, por força do progresso, começa-se a utilizar a fita de plástico, mediante o uso de dispositivos mecânicos que aceleram significativamente a operação.
Para além da empa em tendal, já referida, e da empa à volta dos arames, são tradicionais na região outros sistemas, como a empa amouroada, também designada empa em rabo de coelho, a empa em chouriça ou morcela e, mais raramente, a empa de rodrigão, todas elas já referidas por António Augusto de Aguiar em 1867.

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Esladroamento
Esta prática, também conhecida na região pelo nome de espoldra ou despoldra, realiza-se entre os meses de Maio e Junho; consoante o abrolhamento (muito variável com o clima), é mais temporão ou tardio.
Consiste, como o nome sugere, na supressão dos ramos ladrões surgidos no tronco ou braços das cepas, sendo feito manualmente por mulheres. O seu objectivo consiste em impedir que os nutrientes necessários às plantas sejam utilizados por ramos sem qualquer utilidade. Contudo, os encargos de mão-de-obra que envolve têm-na feito cair em desuso, não sendo comum nas vinhas mais modernas.

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Desparra
Embora não seja uma operação de carácter obrigatório, é feita no Dão com alguma frequência em duas épocas distintas e com objectivos diferentes. Na primeira, por alturas de Maio/Junho, quando as plantas estão em plena fase vegetativa, é feita em vinhas onde há sobreposição de folhagem, com o objectivo de permitir o acesso das caldas fungicidas aos cachos, que se encontram encobertos pelas parras.
Infelizmente, no Dão esta prática é exagerada, prejudicando bastante as videiras. De facto, ao eliminar-se grande parte das folhas com actividade fotossintética, dificulta-se a diferenciação floral, a formação dos frutos e a acumulação de reservas, facultando-se o desavinho.
A segunda época é, geralmente, em Julho/Agosto e com ela pretende-se que os cachos recebam maior quantidade de raios solares, de forma a facilitar a sua maturação. Há, no entanto, que ser cauteloso, pois em anos de seca, em que cai, naturalmente, parte da folhagem, as videiras ficam debilitadas e podem sofrer o escaldão, dificultando-se a maturação das uvas. Já Silva Telles alertava para este problema, frequente na Beira, ao afirmar: "Quando os caixos já estão vingados, e a estação não he secca, e calmosa, he mister desfolhar a vinha para que os caixos sejaõ feridos do Sol, amadureçaõ, e ganhem bastante doçura, o que he muito essencial para o bom vinho (...)".

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Escava ou Descava
É esta a operação com que se inicia um ciclo cultural, algum tempo depois de concluída a vindima.
Consiste em sulcar o terreno ao longo das carreiras da vinha, de ambos os lados das videiras, ou em abrir covas, ou caldeiras, em volta das cepas, tomando, então, o nome de encaldeiramento. Efectuada em fins de Outubro princípios de Novembro, tem vindo, gradualmente, a cair em desuso, face aos custos que envolve e às soluções técnicas que têm surgido para a substituir. O principal objectivo da escava é expor o colo das videiras ao rigor dos frios de Inverno, de forma a evitar o afrancamento, isto é, o aparecimento de raízes junto à zona de enxertia. Mas também é importante na defesa contra a erosão e no aproveitamento das águas das primeiras chuvas, que facilmente se perderiam por escorrimento, devido aos declives acentuados dos terrenos, sem tal operação.
O uso da enxertia ao nível do solo, que já começa a fazer-se na região, permitirá eliminar o carácter anual desta prática, pois impede a formação de raízes na zona do enxerto.

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Cava
Esta prática, de algum modo inversa da anterior, consiste no remeximento da terra no sentido de a aproximar do tronco das cepas. Como o nome sugere, executa-se à enxada, sendo, por isso, um trabalho caro e violento. Por esta razão se diz que "A vinha escave-a quem quiser, pode-a quem souber e cave-a o seu dono". Ainda hoje, no Dão, se faz nas pequenas parcelas de vinha onde não é possível entrar a máquina. Mas, na maior parte dos casos, foi substituída pela lavra, com charrua puxada a tractor ou, muito raramente, a bois. Faz-se, em regra, na Primavera, devendo ter-se o cuidado de não a fazer coincidir com o início da rebentação. Teixeira Gyrão, no seu Tratado de Agricultura das Vinhas, de 1822, realça este aspecto do seguinte modo: "Não se deve cavar no tempo, em que a vinha principia de germinar, porque então, qualquer toque na cepa deita os tenros rebentões abaixo, e se causa um grave prejuízo; depois porém de estarem de duas até três polegadas já não tem tanto perigo".
A cava ou lavra têm como principais objectivos o controlo de infestantes, o melhor aproveitamento das águas da chuva e enterrar os fertilizantes, embora esteja a cair em desuso como prática anual nas vinhas onde não entram os tractores. O uso dos herbicidas, que aos poucos se vai generalizando na região, permite atingir, com menos custos e muito menos mão-de-obra, grande parte dos objectivos da cava.

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Redras
As redras, sachas superficiais do solo com o fim de eliminar as ervas daninhas e conservar a humidade da terra, são realizadas no final da Primavera ou no início do Verão, quando as vinhas se começam a encher de vegetação espontânea. Hoje em dia, são cada vez mais raras, por força do uso de herbicidas, indo longe os tempos em que se viam ranchos de mulheres com a sachola ao ombro a caminho das vinhas.
A redra mecânica, sempre que o compasso da vinha o permite, ainda é muito frequente na região, quer recorrendo ao uso de fresas ou escarificadores, quer ao uso de grades de discos. A redra manual circunscreve-se às pequenas vinhas não aramadas, onde o tamanho das parcelas permite que o proprietário e a sua família possam continuar a manter a tradição.

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Fertilização
Realiza-se, em regra, todos os anos, antes da cava ou lavra. Nas vinhas de maior dimensão recorre-se, essencialmente, a adubos compostos e orgânicos, pois o estrume é cada vez mais raro. O adubo mais frequentemente utilizado contém 10 unidades de azoto, 20 de fósforo e 20 de potássio, não se dando a devida atenção ao estado nutritivo das videiras. A sua aplicação faz-se a maior parte das vezes à mão, distribuindo o adubo à volta das cepas. Mais raramente, é feita com distribuidor de adubo puxado pelo tractor. Quando há consociações da vinha com culturas arvenses, como a batata, usa-se e abusa-se dos adubos azotados, com reflexos negativos na qualidade das uvas.
Nas pequenas vinhas continua a ser frequente o uso de estrumações, graças ao novilho ou às ovelhas que os viticultores ainda vão criando. Em certas zonas, onde a exploração avícola é intensiva, como as de Tondela e Paranhos da Beira, utiliza-se muito o estrume de aviário que, de um modo geral, é prejudicial à qualidade dos vinhos pelo seu elevado teor de azoto.
A aplicação do estrume faz-se, geralmente, com abre-valas a uma profundidade de 30-40 cm, sendo vulgar estrumar apenas metade da vinha em cada ano. Para tal, estrumam-se as entrelinhas, alternadamente, em dois anos consecutivos, diminuindo, assim, os encargos anuais de exploração.

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Curas ou Tratamentos Fitossanitários
Os principais tratamentos feitos à vinha são contra o míldio, oídio ou poeira e podridão. É difícil dizer qual das duas doenças, míldio ou oídio, é mais importante no Dão, pois a sua preponderância é fortemente influenciada pelas condições climáticas do ano agrícola.
Anos há em que o míldio não tem expressão, enquanto noutros pode levar à perda de grande parte da produção, quando não devidamente tratado. O mesmo acontece com o oídio. A podridão aparece em duas épocas distintas. A primeira, antes da floração, e a Segunda, na altura das vindimas, sempre que o tempo chuvoso é persistente.
Apesar da existência de um eficiente Serviço de Avisos na região, que informa os viticultores da necessidade de tratarem as suas vinhas, poucos recorrem a ele. Por tal motivo, é frequente fazerem, ora tratamentos em excesso, gastando mais que o necessário, ora tratamentos a menos, não protegendo as videiras nos momentos críticos.
Os tratamentos contra o míldio eram feitos, até há pouco tempo, com a conhecida calda bordalesa, à base de cal apagada e sulfato de cobre. As mulheres com os cântaros de barro à cabeça, manchados de azul, e os homens sulfatando as videiras com pulverizadores de dorso emprestavam às vinhas um colorido e uma azáfama que actualmente já só se vê nas pequenas parcelas. Nas vinhas modernas, utilizam-se os fungicidas orgânicos e os atomizadores de dorso ou accionados pelo tractor, que permitem um mais rápido e melhor trabalho, muito embora retirem o encanto à cura das vinhas e perturbem a quietude da paisagem com o ruído dos seus motores.
O tratamento contra o oídio também sofreu, nos últimos anos, uma certa evolução técnica. Do enxofre em pó, aplicado com as tradicionais torpilhas, passou-se para caldas de enxofre molhável ou de fungicidas orgânicos, aplicadas com atomizadores motorizados.

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Retancha
Esta operação, muito característica da região, tem por objectivo substituir as cepas velhas ou mortas.
Tradicionalmente, antes da crise filoxérica, era feita por mergulhia, recorrendo a uma vara da cepa vizinha, que se mergulhava no solo para criar raízes. Logo que tal acontecia, era separada da cepa-mãe, originando uma nova planta. Esta técnica, ainda utilizada na região, faz-se hoje com os rebentos do porta-enxerto. No entanto, a técnica mais corrente é a plantação de bacelos, que são enxertados no ano seguinte.
A frequência com que a retancha é feita faz com que tal operação seja, infelizmente, o principal processo de renovação das vinhas da região, dificultando uma reconversão racional da viticultura do Dão. Impossibilita, por outro lado, uma avaliação correcta da idade das vinhas da região. Com efeito, de acordo com os dados do Cadastro Vitícola, cerca de 60% das vinhas do Dão foram plantadas antes de 1932, fazendo supor que a sua idade deveria ser de, pelo menos 60 anos. Tal facto não corresponde, porém, à realidade, devido à prática de retancha.

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Outros Amanhos Culturais
Ainda que com pouco significado, são conhecidos e praticados na região outros amanhos da vinha, como sejam a limpa ou unhamento, que consiste em cegar os olhos mais fracos que se formam nos nós das varas; a desponta, com objectivos idênticos à desparra e a protecção das uvas contra o escaldão, através do uso de rama de pinheiro ou de giestas sobre os cachos mais expostos aos raios solares.
Como se faz um vinho na vinha? (Poda, Empa, Intervenções em verde) Parte III

Poda/Empa
A poda é a operação que consiste no corte de uma parte dos ramos da videira. Os seus objectivos são proporcionar melhores condições de produção e equilíbrio entre a planta e a sua vegetação, caso contrário a videira produz muitos cachos de bagos pequenos e de fraca qualidade. Se a poda se realizar após a vindima, quando a videira não têm folhas, é a poda de Inverno: a videira está em descanso vegetativo e os efeitos da poda na planta destinam-se a preparar a produção do ano seguinte. Se a poda for realizada quando a videira já tem folhas, é designada de poda em verde. Esta poda enfraquece a expansão vegetativa e os recursos da planta são mais dirigidos para os cachos. A empa consiste em dobrar e amarrar a vara que resulta da poda a um tutor (geralmente um arame) e normalmente é realizada ao mesmo tempo que a poda. O tutor apoia a videira e permite que seiva chegue a toda a planta. A vara é dobrada para que as folhas da videira fiquem bem distribuídas.

Intervenções em verde
As intervenções em verde correspondem às operações realizadas na videira, quando esta se encontra no processo vegetativo. É útil para continuar a assegurar as melhores condições de desenvolvimento da planta e de amadurecimento dos cachos. Mas também é essencial para facilitar a aplicação dos produtos fitossanitários e facilitar a passagem das máquinas. Nas intervenções em verde importa destacar: a desponta (corte das extremidades da vegetação); a desfolha (corte dos ramos jovens e folhas desnecessárias para facilitar o amadurecimento dos cachos) e a monda de cachos (utilizada em videiras muito produtivas, consiste na eliminação de alguns cachos para melhorar a qualidade das uvas dos cachos que continuam na videira).
E confortável, prático e útil viveiros no jardim para amarrar escalada feijão e as ervilhas e os tomates, como sempre, bem como vinhas e jardins, para amarrar o filho de pérgulas e outras estruturas, os ramos das videiras da vinha e a vegetação.

Como todos sabemos o vinho vem das videiras e para estas terem a melhor produtividade são necessários alguns cuidados. Ter em atenção a poda é um deles e é o que pretendemos sucintamente explicar neste artigo sobre a poda das videiras.
A poda é a operação que consiste no corte de uma parte dos ramos da videira. Os seus objectivos são proporcionar melhores condições de produção e equilíbrio entre a planta e a sua vegetação, caso contrário a videira produz muitos cachos de bagos pequenos e de fraca qualidade.
Se a poda se realizar após a vindima, quando a videira não têm folhas, é a poda de Inverno: a videira está em descanso vegetativo e os efeitos da poda na planta destinam-se a preparar a produção do ano seguinte. Se a poda for realizada quando a videira já tem folhas, é designada de poda em verde. Esta poda enfraquece a expansão vegetativa e os recursos da planta são mais dirigidos para os cachos.

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